BDSM e relacionamentos abusivos são temas difíceis de lidar trazem desconforto tanto para quem pratica fetiches e muito mais para vítimas desse tipo de relação. Existe uma forte tendência, para quem está vendo de fora, de conectar BDSM e abuso num pensamento desonesto e extremamente conservador, pra dizer o mínimo. BDSM não é novidade no Brasil, mas está se popularizando bastante graças à mídias sociais que deixam tudo mais democratizado e ao mesmo gera muitos desinformados.

Uma das premissas básicas do BDSM é o acordo mútuo entre as partes, coisa que um relacionamento abusivo desconhece. Só isso, porém é suficiente para impedir que uma relação de dominação e submissão não desande para uma de abuso? E quando o abuso faz parte do desejo e do consentimento de ambos? Vamos tentar tocar em alguns pontos fundamentais que diferenciam o BDSM e abuso sexual e/ou emocional, em termos que se aplicam para [quase] todo mundo.

BDSM NÃO FORÇA NINGUÉM A NADA

Não, não e não. Este é o mito mais importante a ser desconstruído antes de prosseguirmos. O BDSM é fundado no consentimento e negociação. Trata-se de vivenciar cenários de fantasias e fetiches em um espaço seguro, depois que as partes concordaram com limites, gostos / desgostos de todos os envolvidos. Qualquer atividade pervertida feita sem consentimento expresso não é BDSM – é abuso, é estupro, é crime!

SUBMISSOS GOSTAM DE SER TRATADOS COMO MERDA O TEMPO TODO

Embora algumas pessoas realmente gostem de assumir postura submissa como estilo de vida em tempo integral, e servirem seus mestres 24/7, isso definitivamente não se aplica a todos os subs e escravos. Além disso, há muitas pessoas que são apenas submissas no contexto das sessões ou eventos BDSM e não se submetem a ninguém do lado de fora. De qualquer maneira, submissos (ou masoquistas, pupies, passivos, etc.) não são o “brinquedo” de ninguém, mas indivíduos que tomaram uma decisão consciente de colocar o poder nas mãos de um dominador, seja para a vida toda numa convivência diária ou para os 30 minutos de uma fantasia passageira e sem conseqüências.

DOMINADORES SÃO EGOCÊNTRICOS MALVADOS, PSEUDO-ESTUPRADORES COM SEDE DE PODER

Embora não haja garantia de que pessoas genuinamente abusivas e criminosas não entrem na cena BDSM, os verdadeiros dominadores ou “tops” em geral estão em constante sintonia com seus submissos e parceiros. Dominar não é passar a vida latindo ordens ou explorando os desejos de alguém em benefício próprio. Dominar também é agradar o submisso, mesmo que seja usando seu lado sádico; Portanto, dominar exige habilidade e precisão. Longe de serem ‘animais selvagens’ dominadores precisam ter um grande auto-controle para não comprometer a segurança e integridade dos seus submissos. E mais uma vez, só porque alguém é dominante no contexto do BDSM não significa que eles andem por aí chicoteando o motorista do ônibus porque passou da parada. Os dominadores fora da cena podem ser tímidos e gentis, tanto quanto os subs podem ser assertivos e arrogantes.

SEMPRE ENVOLVE O SEXO

Não necessariamente. BDSM certamente pode ser parte de preliminares, o contexto para uma cena sexual inteira e, até mesmo, um estilo de vida para alguns casais e indivíduos. No entanto, muitas taras e fetiches não envolvem sexo algum (entendendo sexo como ato de penetração). Em geral, em muitos encontros BDSM há mais pessoas que estão dispostas a bater em você, do que transar com você.

ENVOLVE DINHEIRO E EXPLORAÇÃO FINANCEIRA

Embora existam Dominadores profissionais que cobram por seus serviços,  muitos dos quais não oferecem sequer atividades sexuais – a maioria do BDSM ocorre entre pessoas que estão em relacionamentos, amizades ou simplesmente se encontraram e se curtiram e estão se pegando e não envolvem qualquer troca de dinheiro ou vínculo financeiro. Claro que, quando alguém decide viver o BDSM em tempo integral, muitas vezes (e não é raro) que o controle financeiro possa acontecer por parte do Dominador, mas isso, como todo o resto é conversado e concedido, e não simplesmente tomado à força. Se alguém se apresenta como Dominador (não sendo profissional da área) e quer tudo em troca de agrados, presentes, ou mesmo dinheiro vivo, desconfie das reais intenções dessa pessoa.

É REALMENTE VIOLENTO E DOLOROSO

Só se você quiser que seja. BDSM pode envolver qualquer coisa, desde cócegas com uma pena, até ter sua bunda espancada até sangrar. Tudo giram em torno dos desejos e excitações de cada um e a dor é apenas um fetiche entre muitos no BDSM. Além disso existem níveis de aceitação. Alguns submissos gostam de brincar com fogo ou eletricidade, outros toleram apenas alguns tapas leves. Isso tudo precisa ser, como sempre, conversado.

VOCÊ TEM QUE USAR TODAS AQUELAS ROUPAS E GEAR

Mais uma vez, o que você vai usar está inteiramente por sua conta. Enquanto o BDSM oferece uma saída divertida e excitante para pessoas que amam couro, látex, PVC, veludo, uniformes, etc. (ou apenas a sensação de de estar amarrado com cordas), nada disso é um pré-requisito pra nada, a menos que você quer que seja. Alguns clubes de BDSM estabelecem um código de indumentária (principalmente para garantir que todos estejam cientes do tipo de clube que é, e para evitar pessoas fora do meio e/ou curiosas), mas muitos eventos encorajam pessoas a usar qualquer coisa que se sintam confortáveis, seja jeans e tênis ou nada além de fita adesiva artisticamente colocada nas partes íntimas.

 

Bandeira do “Orgulho Leather” (Leather Pride), um símbolo do BDSM.

Essas são as premissas básicas que regulam o BDSM para quase todo mundo, e em geral, observando esses pontos com cuidado é possível viver experiências fetichistas diversas sem se colocar em risco de sofrer abusos físicos e/ou emocionais. Existem, porém-contudo-entretanto-todavia, outros níveis e outros tipos de relacionamentos BDSM que não são tão seguros ou tão “sadios” de acordo com o senso comum, e que em geral, por fugirem às “normatizações” socialmente aceitas são condenadas rapidamente sem se dar vez ou voz aos participantes.

Nem todos que se desenvolvem no BDSM e assumem isso como estilo de vida, de fato, querem ter seus direitos e integridade respeitados, e encarar isso pode ser chocante pra muita gente. Existem adeptos que gostam de praticar mutilações ou modificações corporais – genitais inclusive – ou que tem enorme prazer em transferir todos os bens e propriedades para seus dominadores, ou ainda aqueles que se afastam do convívio social, familiar e profissional para se dedicarem totalmente a servir seus mestres. Como avaliar ou julgar o que pode ou não pode, o que é ‘certo’ ou ‘errado’ nas escolhas que indivíduos adultos fazem para seu próprio futuro. Eu não tenho essas respostas, e acredito que ninguém as têm para todo mundo. Cada caso é único e cada situação requer uma abordagem diferente. O universo da sexualidade humana é rico mas pode ser muito sombrio, e quem nunca teve desejos devastadores e terríveis que atire a primeira pedra. Não faço qualquer apologia a atos criminosos, mas defendo o direito de cada indivíduo adulto de viver sua sexualidade plena e livremente, desde que não cause prejuízo ou dano a terceiros. O fundamental, porém, permanece. Para ser BDSM precisa começar com consentimento mútuo e desejo voluntário e totalmente consciente de estar na situação proposta por vontade própria. O resto é silêncio.