Fotos: Ronaldo Donizeti e Márcio Mattos | Masculicidade

Na nossa série de entrevistas, hoje iremos conversar com Dom PC. Conhecido no meio BDSM e fetichista de SP por participações em eventos como o BDSM Camp em 2016 e pelo BDSM Experience em 2017, o taurino Raphael ou Dom PC é um Paulistano de 37 anos, 1,77m de altura e 73 muitíssimo bem distribuídos. Nessa entrevista, ele fala com bastante desenvoltura sobre o Mr Leather Brasil, sobre o rolê fetichista brasileiro e claro, sobre o univero BDSM.

 É um prazer conversar com o Sr. Sua participação na cena Leather é já conhecida, conte o que levou o Sr. a participar do concurso esse ano?

Recebi muito incentivo de amigos da comunidade Leather tanto no Brasil quanto lá fora. Depois de refletir bastante decidi pela candidatura, pois no momento em que estamos, acredito que o principal ponto seja dar visibilidade à cultura Leather no Brasil, desmistificar e quebrar preconceitos.

Ao mesmo tempo acredito que é necessário a valorização da indústria nacional de roupas e acessórios em couro, não apenas pelo consumo, mas também pelo incentivo e ideias no design e fabricação de produtos em couro que atendam às expectativas do público brasileiro.

Mas sem dúvida a minha motivação é pela comunidade, no sentido de fortalecer os laços de amizade e parceria entre os nós.

 E de que maneiras o Sr. acha que concurso pode ajudar nessa divulgação do leather e no crescimento da comunidade brasileira?

Acredito que a função do concurso é reforçar os laços de amizade e parceria da comunidade leather através da eleição de um representante que esteja alinhado com ideais e princípios que motivam a todos (ou pelo menos maioria) a se afinizar com a cultura Leather. Acredito também que existe uma função social de fundamental importância na atuação efetiva na prevenção e conscientização sobre as DST/AIDS, no incentivo à pratica do sexo consciente e à prática do BDSM sempre seguro, sadio e consensual, promovendo o debate deste tema junto da comunidade LGBT e fetichista e apoiando as instituições que trabalham nesta causa.

Penso que a figura do Mr. Leather deve do cara que inspira e estimula os simpatizantes não apenas do couro, mas dos fetiches em geral, a “saírem de seus armários” e vestirem com orgulho seus gears.  Além disso, como forma de projetar a cena brasileira na comunidade leather internacional, mostrando ao mundo que temos também a cultura leather aqui e que ela, de certa forma, dialoga com nossa cultura, tornando-se algo único.

 Na sua visão, quais os desafios ou problemas que a comunidade fetichista encara hoje no meio gay no Brasil? Ainda há muitos tabus?

Vejo dois grandes grupos de problemas: internos e externos à comunidade fetichista. Internamente, a comunidade aparenta passar por um estado de fragmentação, com vários membros descontentes e desmotivados. Acredito que muito disso possa ser fruto de egos feridos e/ou inflamados.

Sem entrar nas razões que levaram a isso, a gente observa um certo desânimo em quem curte leather no Brasil e aacaba que não existe a sensação de pertencimento a uma comunidade de verdade. O senso de grupo fica obscurecido pela vaidade, mágoa, orgulho, descontentamento…

Externamente, nos deparamos com duas barreiras a serem transpostas. Primeiro a sociedade que ainda é muito machista, conservadora e preconceituosa com a comunidade LGBT como um todo, o que se agrava mais ainda quando se fala da comunidade fetichista em toda sua extensão – não apenas leather. Em seguida, uma outra barreira é dentro do próprio meio LGBT que também tem preconceito (velado ou não) com a comunidade fetichista. Ridicularizar os fetichistas é bem comum em vários meios LGBT, infelizmente.

Nós, gays fetichistas temos que sair de “dois armários”: primeiro o armário da orientação sexual e depois o armário das preferências sexuais e fantasias. Pra isso, é preciso quebrar ranços interpessoais e colocar de lado pequenas vaidades pessoais da comunidade como um todo, pois dessa forma um ajuda o outro nesse processo de aceitação de si mesmo, no processo de descoberta e vivência do estilo de vida leather, BDSM, etc…

 Na sua vivência no mundo dos fetiches, tem alguma ocasião que considera especial ou memorável pra contar pra gente?

Algumas, mas gostaria de falar especialmente da minha viagem à Europa em setembro de 2015. Eu tive o prazer de visitar a FOLSOM EUROPE em Berlim, uma das experiências mais fabulosas no contexto leather e BDSM. Foram vários dias em eventos diversos, foi uma viagem muito excitante e muito enriquecedora! Teve também a visita ao bar The Boots, na Antuérpia, Bélgica foi uma experiência incrível, devido à sua enorme estrutura e à tradição leather da cidade… Experiências realmente memoráveis…

 Pela sua expressão de saudade, posso imaginar… (risos). O Sr sempre menciona contato da comunidade do Brasil com comunidades de outros países. É algo que o Sr considera importante?

A projeção internacional do Brasil, independentemente do concurso e de seu resultado, já é algo que tenho trabalhado no último ano em razão do grande número de amigos nas comunidades leather/BDSM em vários países.

Mais recentemente, participei dos eventos relacionados à eleição do Mr. Leather Espanha em dezembro de 2017, em Madri, onde pude observar toda a estrutura e organização do evento, trocar informações com o presidente do Club Leather Espanhol e conversar com os jurados sobre os critérios de julgamento. Foi uma experiência ímpar, que me rendeu vários amigos e incentivadores à minha candidatura a Mr. Leather Brasil, bem como uma proposta de aproximação e intercâmbio entre as comunidades Leather Brasileira e Espanhola.

Em muitos lugares do mundo, viver um estilo de vida fetichista é algo absolutamente normal. Eu me considero um Leatherman, pois vivo esta realidade, estou sempre buscando conhecer mais e mais sobre este mundo; eu uso couro/botas no meu dia-a-dia; eu falo para as pessoas sobre a cultura leather, não no sentido de querer “doutrinar”, mas sim para dar visibilidade à nossa cultura, desmistificar, quebrar preconceitos, mostrar que somos pessoas comuns, que trabalham, que tem suas famílias, que pagam suas contas, que somos bons profissionais, bons filhos, bons maridos, bons amigos e que temos esta paixão por este universo. Se é possível em outros países, por que não podemos desejar que seja possível também no Brasil? Acho que temos bastante a aprender com as experiências das comunidades de fora.

 Para quem está chegando agora, o que o Sr aconselharia? Como começar?

Meu conselho é tentar conhecer bem o caminho por onde está seguindo, sem pressa, com responsabilidade, sempre no sentido de preservar sua integridade física, emocional e também social, já que vivemos numa sociedade ainda muito preconceituosa. Sempre que possível cercar-se de pessoas que já tenham alguma vivência na cena e que possam compartilhar suas experiências. E eu digo compartilhar, porque não importa o quanto de experiência a pessoa tenha neste âmbito, estamos sempre aprendendo! Não existe uma fórmula/combinação correta, ou uma hierarquia dentre os fetiches, mas sim uma gama de possibilidades de expressão do fetiche de cada um, seja ele por couro ou qualquer outro material/objeto/atitude.

Tenho 13 anos de efetiva imersão na cultura Leather e BDSM, sendo que estudei muito, li muito sobre o assunto, suas origens, história e evolução, para entender seus processos e me entender como parte deste universo maravilhoso, pois além da atuação na comunidade Leather brasileira, tive a oportunidade de vivenciar a cultura Leather/BDSM fora do Brasil, e ainda continuo aprendendo sempre!

 O Sr tem um carinho especial por alguma peça de couro ou acessório? O público vai poder ver?

Minha peça favorita é uma calça de couro da Mister B, modelo FuXXer Pants, com listras brancas. Comprei em Berlim, em 2015 durante os eventos da FOLSOM. Ela é simplesmente fantástica, tem um couro grosso e brilhante e ajusta-se certinho ao meu corpo. Uso na maioria dos eventos Leather/Fetichistas e até mesmo em casa. O “toque” dela na minha pele é algo indescritível.