Fotos: Ronaldo Donizeti e Márcio Mattos | Masculicidade

Hoje trazemos o último concorrente do Mr. Leather, Kake. Carioca criado no interior, o moço hoje mora em SP e é um sucesso nas mídias sociais. Seu facebook e instagram estão sempre bombando com muitos seguidores fieis. Aos 42 anos, corpo muito bem trabalhado, 1,68m de altura e 83kg de músculos, ele esconde o jogo, mas nos deixa na curiosidade: “O tamanho da arma? Só os meus 2 maridos ficam sabendo! O que posso dizer pra você é que tenho um piercing Prince Albert”

 Começando com o padrão, conta um pouco mais de você, de onde você é, etc..

Eu fui criado na roça, numa fazenda no interior do Rio. Muito cedo tive muito contato com couro, botas, cavalos e peões… Tenho lembranças de muito novo estar em contato com o cheiro do couro das selas de montaria. Agora estou morando em SP há 12 anos. O leather foi um dos motivos de me mudar pra cá, aliás, o leather e todos os meus outros fetiches. São Paulo é uma cidade muito cosmopolita, onde há espaço para todas as tribos.

 O que te motivou a participar do concurso?

Essencialmente duas coisas coisas. Tenho muito orgulho de ser gay assumido; e até anos atrás em contraponto a isso, minha paixão pelo couro eu guardava só pra mim. Não exteriorizava meus desejos, e isso me incomodava muito. Então coloquei tudo pra fora do armário, literalmente. Botas, camisas, jaquetas, jockstraps e todos os meus desejos e vontades. E isso me fez ter mais orgulho ainda do que sou.

Outra motivação é ver que a cena leather no Brasil, principalmente em SP, vem aumentando muito. Senti que era a hora de eu fazer algo pra ajudar nesse crescimento. E tenho certeza que posso ajudar e ao mesmo tempo aprender muito.

 De que maneiras você acha que pode ajudar a cena Leather brasileira?

O fetiche em couro tem muito potencial por aqui. Cada vez temos mais festas nessa temática, vários eventos e muita gente aderindo a cena, saindo do armário. Mesmo assim o preconceito ainda é muito grande. E algo tão importante como um concurso nacional dá a visibilidade necessária à cena leather para que possamos pouco a pouco ir diminuindo todo esse preconceito existente por aí. Isso é o mais importante!

Além disso, tendo por aqui um título de Mr Leather brasileiro, conseguimos visibilidade mundial, participando do IML (International Mr. Leather), mostrando ao mundo que temos uma substancial cena leather em nosso país, mesmo sendo aqui um país tropical.

 E dentro da comunidade leather, o que vc encara como problemático? O que se pode melhorar?

O Brasil é um país de muito preconceito e muitos tabus, apesar de toda nossa diversidade. Um dos motivos de escolher São Paulo como minha casa, foi a falta de liberdade existente em muitas outras cidades brasileiras. São Paulo é onde mais me sinto à vontade saindo na rua em full leather, por exemplo.

É muito importante divulgar e passar à frente referências corretas, pois muita gente tem ideias completamente deturpadas sobre a cultura leather. Acho muito triste quando dentro da comunidade Leather temos exemplos que contrariam esse sentimento de liberdade. Onde lutamos contra os preconceitos e os tabus, temos sites importantes na cena onde, por exemplo, censuram fotos sem camisa. Isso é o contrário do que acredito.

 E por falar em sair em full-leather, qual seu estilo? Alguma peça especial?

O estilo leather que mais gosto é o vintage. Há mais liberdade, é mais despojado, mais sexy, peito aberto, lembrando as décadas de 70/80, como nas ilustrações de Tom of Finland. Não desmerecendo o estilo mais contemporâneo, o full leather com suas camisas e gravatas, que é sofisticado, requintado, elegante  ao extremo. Por essa preferência as peças que mais gosto são as de baixo: uma boa bota de cano alto com uma calça bem apertada. Tudo de couro bem rígido e brilhante. Sabe, uma das coisas mais importantes que o leather significa pra mim é a liberdade. O leather me passa muito isso. Exatamente como meu orgulho de ser gay, que também me traz esse sentimento de liberdade.

 E nas suas andanças por esse universo leather, tem alguma situação ou momento que marcou você?

Muitas. Minha primeira bota, na fazenda quando criança.

A primeira vez que li um “giallo” na vida (Livros italianos de suspense e romance policial, onde sempre existiam serial killers usando muito couro, principalmente luvas bem brilhantes).

Eu adolescente, deslumbrado com as ilustrações do Tom of Finland, onde tive meu primeiro contato com o Kake. Foi amor à primeira vista.

A primeira vez que sai em full leather numa balada, sentindo o poder que o leather de proporciona. A primeira vez que tentei fazer sexo em Leather. Sempre me perguntam se não é desconfortável. Eu digo que sim, que é desconfortável pra muita coisa; mas não importa, porque o leather conforta nossa alma.

 Qual conselho você daria para quem está começando na cena?

Não desistir e principalmente não resistir aos seus desejos e sentimentos por medo ou por conta de todos os preconceitos existentes aí fora. Lutar para ser feliz sendo quem você é. Nunca se esconder. Não viver com medo do que tem no seu coração.

Muita gente me pergunta por que eu exponho tanto minha vida e meu relacionamento na web, nas redes sociais. Eu sempre digo que é pra mostrar a todos que vc pode ser feliz amando outro homem, ou quem vc quiser amar. Exponho meus sentimentos pq são verdadeiros e sei que isso ajuda muita gente a ter coragem de procurar o mesmo. Recebo mensagens, posts, e-mails, muitos deles me agradecendo pelas referências dadas pelo meu relacionamento e minhas experiências; ajudando pessoas a se assumirem e terem coragem de buscar o que realmente vai fazê-las felizes.

 Pra terminar, que mensagem vc gostaria de dar para nossos leitores?

Só de estar participando do Mister Leather Brasil, tenho certeza que já estou ajudando a divulgar e a dar referências corretas a muita gente. Referências tortas temos muito nesse nosso país.

E principalmente, que ao invés de termos divergências e confusões dentro da nossa cena leather, temos que nos unir cada vez mais. Somente andando juntos conseguiremos fazer crescer e concretizar nossos ideais; para assim podermos consolidar algo maior aqui em SP e em outras cidades desse nosso país.