Sexo é bom e quase todo mundo gosta. Fantasias sexuais e fetiches são ainda melhores, e servem tanto para apimentar uma relação meio morna quanto para extravasar desejos profundos que muitas vezes guardamos do respeitável público na nossa vida cotidiana. O mundo dos fetiches é vasto e, para muita gente, é um mundo ainda inexplorado.

Nessa coluna, vamos tentar conhecer um desses mundos: o universo gay BDSM. A menção da sigla seja talvez novidade para alguns, então vamos tentar esclarecer  do que se trata. Sabe aquele pessoal que curte usar roupa de couro, arreio, botas e chicote? Que curte um sexo com uma pegada mais forte? Um jogo de dominação, etc? Pois é, estamos falando é disso ai!

Depois da divulgação do livro “50 tons de cinza”, seguida pela adaptação cinematográfica de mesmo nome, o tema da dominação/submissão na dinâmica sexual chegou a todo lugar. Quem não ficou farto de ver tantas publicações sobre isso em todas as mídias sociais?

A vantagem da popularização do livro/filme porém, foi que muitas pessoas descobriram que o prazer pode ter vários tons, formas e ações além daquelas que elas estavam acostumadas. Mas afinal, apesar do despertar dos desejos, será que todo mundo entende do que se trata essa “coisa” que caiu na boca do povo? Exatamente por ser ainda um tema pouco discutido e cercado de muito tabu no meio gay brasileiro, optamos por discuti-lo de forma aberta, sem preconceitos, em diálogo com nosso leitor, pois queremos que todos possam curtir seus fetiches, fantasias e estilos de vida da forma mais saudável possível, e claro, sempre muito bem informados.

BDSM pode parecer algo complicado já pelo nome, mas se entendermos o sentido de cada letra já começamos a esclarecer  muita coisa! Essa sigla, internacionalmente usada e reconhecida, tem significados diferentes para diferentes grupos. De forma geral entende-se como sendo a abreviação de BONDAGE-DOMINAÇÃO-SADISMO-MASOQUISMO, há ainda a variação BONDAGE-DISCIPLINA-SUBMISSÃO-MASOQUISMO. Seja como for, o conceito é claro: BDSM representa um grande número de práticas sexuais e fetichistas que podem ou não ter conexões entre si. As interações de Dominação/submissão, dor/prazer e disciplina/controle estão presentes na imensa maioria dos relacionamentos que podem se formar dentro do universo BDSM, mas não são as únicas e com certeza muitas variedades são sempre possíveis, pois a sexualidade humana é sempre muito criativa!

BONDAGE é uma palavra inglesa e significava originalmente um vínculo de escravidão, (bond em inglês pode ter esse sentido até hoje, basta lembrar da super cola chamada super-bonder). Em termos de fetiche, bondage é uma prática cuja principal fonte de prazer consiste em amarrar e imobilizar o parceiro, seja com cordas, cintos, tiras de tecido, couro, correntes, etc. DISCIPLINA, DOMINAÇÃO E SUBMISSÃO são práticas diversas, que podem envolver jogos sensuais e/ou sexuais, dependendo das imaginações dos participantes. SADISMO e MASOQUISMO são as práticas que envolvem, respectivamente, causar e receber do parceiro algum tipo de dor que pode propiciar grande prazer a ambos.

Desde sempre, as atividades sexuais consideradas fora da normatividade social foram condenadas de diversas formas; seja como pecado, blasfêmia ou crime, tudo que foge da sexualidade “padrão” está ainda hoje cercado de “vergonhas”. As práticas BDSM, contudo, são bem mais antigas que a expressão em si. A flagelação ritual era conhecida já no culto de Ortia na região que deu origem a cidade de Esparta, na Grécia arcaica; Pinturas etruscas de 490 a.C. mostram dois homens chicoteando uma mulher durante o sexo, e o poeta romano Juvenal descreve a mesma cena em um de seus livros no século II d.C. O Kama Sutra fala sobre quatro formas diferentes de violência corporal que podem causar prazer durante o  ato  sexual, e as  crônicas medievais e os arquivos da inquisição  estão repletos de relatos sexuais com tantos detalhes que fazem lembrar contos eróticos.

No século XIX algumas formas diferentes de experimentar o desejo e o prazer sexual passaram a ser classificadas como doenças do corpo ou da mente, dando origem ao amplo vocabulário psiquiátrico das “perversões”. A classificação dos comportamentos e desejos sexuais em diferentes perversões é uma das razões da existência dos muitos tabus e preconceitos que cercam a sexualidade humana atualmente. Qualquer prática sexual que fugisse do famoso “papai-mamãe” era rapidamente classificada como perversão e por lá ficava, catalogada como uma enfermidade humana e passível de “cura”. Assim, dessas avaliações e estudos da mente nasceu o nome SADOMASOQUISMO, composto de duas palavras do jargão psiquiátrico do começo do século XX: sadismo e masoquismo.

As duas palavras porém tem origens bem mais interessante que o vocabulário médico. A palavra Sadismo deriva do nome do francês Donatien Alphonse François de Sade, o famoso Marquês de Sade (1740-1814), e, como mencionamos acima, significa a excitação sexual que é provocada ao se causar dor no parceiro. Sade era um pensador e escritor que, caso fosse vivo, mesmo no Brasil de 2015, teria dificuldade em publicar suas obras, pois o teor do que ele produzia chocaria muita “gente de bem”. Fica a dica de leitura! O termo masoquismo também tem sua origem na literatura, o no nome do escritor austríaco Leopold von Sacher-Masoch (1836-1895). Ele, ao contrário de Sade não era praticante das artes da perversão, mas escreveu um romance (A Vênus de Peles, de 1870) em que um dos personagem atinge o orgasmo após ser violentamente espancado pelo amante da esposa, a partir daí o processo é fácil de explicar. A evolução do nome de Masoch para a expressão masoquismo vem justamente da popularidade do livro e do autor; outra dica de leitura!

Contudo, é somente em 1969 que se tem o primeiro registro conhecido do uso da expressão BDSM , como uma sigla em inglês. Não mais representando nenhuma “doença” mas sim os desejos e fetiches de muita gente que aparentemente vivia uma vida normal, mas que “depois da meia noite” virava abóbora e incorporava uma ou várias fantasias. O século XX viu nascer no mundo ocidental uma liberdade individual até então desconhecida, o que permitiu que muitos desejos guardados dentro de cada um viessem à tona. O aparecimento da vida noturna nas grandes  capitais  do mundo, bem como o surgimento dos primeiros locais de encontro para os públicos fetichistas, já a partir dos anos 1910, ajudaram a criar um “submundo” onde as convenções sociais eram suspensas, ainda que temporariamente; Essa vida noturna nascente favoreceu o aparecimento de  pequenos nichos de liberalidade nos quais fetiches, desejos e fantasias puderam florescer fora dos olhares reprovadores de uma sociedade ainda bastante tradicionalista. Todo mundo já ouviu falar do Moulin Rouge, certo? Foi em espaços como esse que tendências surgiram e se popularizaram. O crescimento estrondoso a partir dos anos de 1920 da vida noturna gay em cidades como Nova York, São Francisco, Londres, Berlin e Paris proporcionaram o crescimento das práticas que nós hoje conhecemos como BDSM, além disso as primeiras publicações sobre o univero gay fetichista ajudaram a popularizar ainda essas práticas. As revistas European Fetish de 1928, a American Fetish de 1930 e a Gay Leather em 1950 e um sem número de outras publicações menores na Itália, Alemanha, Holanda e claro, Finlândia. O famoso artista Tom of Finland já publicava nos anos 1940 seus incríveis desenhos e o fotógrafo Tom Nicol usava suas lentes para captar homens vestidos de couro em posições sensuais!

Um estilo estético muito particular nasceu desses primeiros movimentos. Um novo estilo que iria marcar para sempre o imaginário BDSM. Roupas modernas, com cortes arrojados e caimento justo, feitas com tecidos sintéticos, látex ou borracha, foram somadas a uma estética bélica depois da Segunda Guerra Mundial: botas, máscaras de gás, quepe militar e claro, muito couro, inspirado nos uniformes usados pelos soldados de vários países, feitos para protegê-los, especialmente no inverno. Outros elementos se juntaram para ajudar na criação de imagens de empoderamento ou obediência, os símbolos clássicos de status social e, portanto, de superioridade, como as roupas sociais em couro ou charuto, ou de inferioridade e submissão, como a coleira ou o cinto de castidade. O último toque que adicionou novos elementos a todo esse universo sensual veio nos anos 1960 e 70 com a explosão do Rock em todas as suas variantes, que serviu para popularizar, ainda que indiretamente, a estética fetichista e adicionar elementos metálicos e mais agressivos ao visal BDSM. Todos esses fatores vindos de contextos diferentes deram origem à grande variedade de fetiches e fantasias que apareceram mais fortemente nas últimas décadas graças aos avanços da tecnologia da informação. No universo BDSM boa parte da sedução acontece pelo visual e o tesão se relaciona muitas vezes com o personagem que o outro encarna ou veste. A transa BDSM começa, muitas vezes antes mesmo do sexo em si, e nem sempre termina nele!

Para finalizar, gostaríamos de deixar bastante claro as práticas do BDSM são muito variadas em intensidade. Cada um tem seu fetiche, seu tesão e sua atração. E todo dia surgem novas maneiras de experimentar desejos e fantasias. Em 1983 um comunicado da New York Gay-Male-S/M Activists (GMSMA) tornou popular o que hoje é considerada a regra clássica do BDSM:  SSC  ou  Sadio/Seguro/Consensual, ou seja, todos os envolvidos precisam entender, concordar e querer! Converse com o seu parceiro sobre o que ele deseja, estabeleça como cada econtro e sessão devem funcionar, e sempre respeite os limites dos parceiros. O que nunca podemos esquecer é que as práticas BDSM envolvem a busca do prazer e não devem oferecer perigo ou prejuízo a ninguém. Confiança e prazer precisam estar lado a lado.

 

Imagem: Ilustração de Tom of finland (reprodução)