“Para ele era uma passagem escura para lugar nenhum, depois para lugar nenhum, e novamente para lugar nenhum, e mais uma vez, sempre para lugar nenhum, pesado sobre os próprios cotovelos fincados na terra, para lugar nenhum, escuridão, nunca um final, sempre dando em lugar nenhum”  – Ernest Hemingway Por Quem os Sinos Dobram, cap. 13.

Ernest Hemingway é sempre uma boa leitura em qualquer momento da vida. Numa de suas mais consagradas obras, “Por Quem os Sinos Dobram” o autor descreve um ato sexual de forma brilhantemente poética e ainda sim muito forte. No entanto, como uma obra literária é aberta e portanto passível de várias interpretações, podemos dizer que mais de uma leitura pode ser feita desse pequeno trecho. Trazendo para o universo BDSM que povoa minhas colunas eu gostaria de propor um tom menos carnal e mais emocional / mental à passagem escura que pode levar a lugar nenhum: as relações de D/s [Dominação/submissão].

As relações de Dominação/submissão são uma área um tanto obscura do BDSM porque em geral são raras e demandam um grande desprendimento de todos os envolvidos, e como quase tudo que requer compromisso nesse começo do século XXI, está um pouco fora de moda. Existem vários estilos de relacionamentos D/s, desde o mais básico que funciona quase como uma amizade com benefícios até o engajamento 24/7 (se não entendeu, volte umas casas e leia os textos anteriores). A idéia desse texto porém, não é a descrição detalhada de como funciona cada uma das formas de D/s, mas sim de fazer uma reflexão sobre os problemas que podem estar atrelados a todas elas. Medos, traumas e abusos é o tema de hoje. Não muito festivo.

Meses atrás recebi um telefonema do serviço social de um hospital não longe da minha casa. Um amigo tentara, felizmente sem sucesso, se matar. Ao ser levado ao hospital pela ambulância e vivendo longe de familiares há uns anos, passou meu contato à assistente social. Eu fui correndo até o local onde ele estava internado tentar ajudar de alguma forma e conversar com ele, tentando entender porque diabos ele atentou contra a própria vida, mas já previa o que eu iria encontrar. Vamos chamá-lo de Martin. “Eu tava tão entregue, tão envolvido… era como uma droga; quanto mais eu tinha mais eu queria e agora, nada mais…”. Foi mais ou menos assim que ele me cumprimentou ao me ver chegar. Martin é alemão da região de Hamburgo, tem 34 anos, é um homem bonito, quase urso, com uma vida profissional e financeira estável. Trabalha numa editora de livros em Berlin, um trabalho que segundo ele “é o inferno e o céu ao mesmo tempo”. Fora das luzes do dia, porém, ele era uma figurinha conhecida dos clubes e baladas BDSM, onde em geral sempre se apresentava como escravo/sub para quem quisesse usar. Alguns podem ler seu comportamento como pura promiscuidade, mas quem já esteve na pele do Martin sabe que muitas vezes o que parece putaria pode ser na verdade uma busca que nunca tem fim por encontrar um sentido na vida, ou talvez um dono. Esse era o caso do meu amigo.

Num desses clubes de ‘sexo pesado’, ele encontrou alguém que morava em outro país e estava aqui por questões profissionais. Pronto, tudo clicou como num passe de mágica. Kinks, fetiches, desejos, ideias e vontades se combinavam lindamente quase que por encantamento ou maldição como se revelou mais tarde. O Dominador em questão era Francês e visitava Berlin com certa regularidade por conta da empresa em que trabalhava; ele e Martin desenvolveram um vículo forte rapidamente, numa D/s litúrgica, restritiva e aparentemente boa para ambos. Porém, como no texto de Hemingway, Martin estava entrando numa passagem escura rumo a vários nadas. Ao contrário do lugar comum de muitas relações desse tipo os problemas de Martin não começaram na carteira ou na conta bancária, afinal de início ambos possuíam uma vida financeira-profissional estável. Não foi no bolso onde meu amigo começou a sentir os efeitos de uma relação abusiva, foi na sua psiquê.

O Dom de Martin exigia dele fidelidade emocional e sexual, o que pode ser interessante para um relacionamento D/s por formar um vínculo mais forte entre ambos, mas também pode ser o primeiro sinal de violência emocional velada. Essa exclusividade e fidelidade exigidas não eram apenas com relação aos crushes e outras fodinhas eventuais que (quase) todos nós temos por aí; Martin foi se afastando não apenas do meio BDSM, mas dos amigos em geral, dos familiares, dos vizinhos, dos contatos sociais… e até da atendente da padaria com o qual trocava uma conversa fiada de quando em vez. A idéia era limitar a convivência do Martin ao menor número de pessoas possíveis (no caso, basicamente, só àquelas necessárias no ambiente profissional) para que ele pudesse focar toda sua energia no seu Mestre.

Depressão e ansiedade são problemas comuns no meio BDSM, mas que muitas vezes ficam invisíveis.

 

O Dom, por não morar em Berlin, visitava a cidade regularmente, no começo até três vezes por mês, e a cada nova visita a alienação emocional e social do Martin ia aumentando, eu fui um dos poucos amigos que passou na lista de “aprovados” do Dom (suspeito que existiam outros interesses em jogo por trás dessa aprovação, mas nunca tentei descobrir quais, fiz a tonta, felizmente). Como a relação dos dois se dava na maior parte do tempo à distância, boa parte da interação era online. Segundo Martin a ausência física e todo os esforços que ele fazia para satisfazer um homem cujas demandas eram cada vez maiores eram totalmente compensados pelos encontros mensais.

As semanas viraram meses e os meses se acumularam em anos num peso de solidão que começava a incomodar o Martin profundamente. A dedicação e boa vontade dele para com o Dom eram as mesmas, talvez eu arriscaria dizer, ainda maiores com o passar do tempo, porque em teoria o objetivo último era pelo menos morar na mesma cidade que o cara. Do outro lado da história, porém, a coisa era diferente. Essa dinâmica de D/s funcionou no começo, quando Martin ainda era uma novidade, mas depois que o encantamento com o brinquedo novo passou, meu amigo foi parar numa prateleira qualquer da vida sexual do francês, pegando poeira junto com outros tantos que depois soube-se que ele colecionava. Até aí nada demais, pois quem geralmente pratica BDSM não espera monogamia de um Dom, muito menos exclusividade sexual, mas é sempre mais tranquilo quando tudo é dito e feito às claras, o que não era o caso.

O Dom obviamente tinha uma vida social e sexual muito mais ativa e totalmente independente do Martin; enquanto meu amigo atrelava sua existência ao controle do outro, outro parecia ignorar o que essa responsabilidade significava em termos concretos. A vida do Martin estava se deslocando rapidamente para gravitar ao redor do Dominador, e novamente, até aí, nada demais. O problema é que para alguém gravitar ao redor de outro alguém, é bom e necessário que o centro da coisa esteja presente, e as ausências do Dom eram cara vez mais óbvias. Perguntas sem respostas, planos vagos, ideais sem pé nem cabeça, fetiches caros e realidade quase zero…

Afastado das pessoas com quem costumava se relacionar, sexualmente frustrado na maior parte do tempo (cinto de castidade pode deixar qualquer um doido), com a mente borbulhando de pensamentos e emoções e o corpo fervendo de desejo, Martin ficava maluco à espera de um sinal de vida qualquer do Dom: um e-mail, uma mensagem no telegram ou whatsapp, uma curtida qualquer no Facebook ou Instagram, ou quem sabe um telefonema? Não se precipitem em julgar o Martin. Quantos de nós, subs ou não, quando apaixonados ou envolvidos com alguém não agimos exatamente assim? Nós submissos nos entregamos. É assim que funciona. Sem essa entrega nenhuma dinânica do BDSM daria certo, pois ceder o poder e o controle ao outro é a base de tudo. Alguns se entregam mais, outros menos, alguns na hora do sexo, outros na hora do fetiche, outros em todas as horas, esses, coitados, são os que mais se dão mal (ou não…).

Se num relacionamento baunilha essas ausências emocionais já causam uma situação problemática, numa D/s é bem pior, porque não existe sequer a pretensão de equilíbrio entre as partes, o que dá ao Dom a falsa sensação de que ele pode fazer o que quiser da forma que quiser e que o sub estará eternamente esperando, sem questionar ou talvez até grato pelos minutinhos de atenção ou pela gozada rapidinha. Muitas vezes o sub pode, de fato não questionar com palavras, mas por dentro o papo é outro. A expectativa por migalhas de atenção cresce conforme o interesse do outro diminui, e o desejo de servir se mantém igual quando a admiração é real e a coleira é levada a sério. Receita perfeita para dar merda, pelo menos na cabeça de qualquer sub.

 

“um solitário crônico, aleijado socialmente das pessoas que poderiam lhe dar alguma ajuda e bastante envergonhado de si mesmo por ter se deixado levar até àquela situação…”

Quando o Dom aparece brevemente para um sexo forte ou uma sessão esporádica para aliviar a tensão o sub se derrete e aceita, seja por tesão, seja por carência, seja por medo de perder o cara, seja por tudo isso junto ou seja apenas para dizer que não está sozinho. Quando um sub está emocionalmente rendido, qualquer micro demonstração de interesse por parte do Dom já nos deixa mais felizes que filhotes de labrador, quando porém eles somem – e não apenas fisicamente, mas também emocional e/ou intelectualmente, o vazio é avassalador. Recomeça o ciclo de todo relacionamento abusivo, com um agravante, o outro na maioria das vezes acha que está tudo ótimo por desconsiderar o submisso enquanto sujeito. Com o Martin não era diferente. Ao longo do tempo e com a repetição desses ciclos, a saúde emocional dele foi se desgastando ao ponto de desenvolver depressão e ansiedade não tratadas mas claramente diagnosticáveis.

Durante os quase três anos desse relacionamento o Dom ficou desempregado alguns meses, e até conseguir novo trabalho, cabia ao Martin fazer as coisas acontecerem no mundo real. Passagem, alimentação, transporte, etc… um esfoço financeiro somado ao já enorme esforço físico e emocional. Quando o Dom conseguiu um novo emprego, dessa vez para atuar exclusivamente em território francês, a coisa desandou totalmente. Os encontros cada vez mais raros, as conversas mais escassas, muitas vezes monossilábicas foram fazendo do Martin um solitário crônico, aleijado socialmente das pessoas que poderiam lhe dar alguma ajuda e bastante envergonhado de si mesmo por ter se deixado levar até àquela situação. Martin tinha ganhado consciência, mas era um pouco tarde para apenas dar um tchau para o Dom. Estava muito envolvido; tentou conversar, explicar, colocar o que sentia… sem sucesso. A gota d’água foi um diagnóstico de câncer na bexiga. O Dom, como era de se esperar, sumiu após a segunda quimioterapia… os cabelos se foram, e ele também… Foi comprar cigarro na Sibéria e até hoje não voltou. Consequência, meu amigo tentou morrer por conta própria, por se ver diante de um dos momentos mais dificeis da vida e se julgando absolutamente sozinho.

A história do Martin é extrema e dolorida. Mas quantos de nós não nos pegamos em situações similares? Mesmo sem recorrer ao suicídio, quantos de nós não sentimos algumas coisas morrerem dentro de nós por causa ações ou ausências de Dominadores e homens que veneramos achando que eram a nossa razão de viver?

Julgar o Martin seria a saída mais óbvia. Afinal, um homem adulto em teoria é capaz de saber onde está se metendo, e a consensualidade do BDSM dá a entender que ele estava de acordo com tudo. Mas é tão simples assim? Alguns dominadores veêm na ausência de questionamentos abertos e diretos uma prova de submissão e a concessão para agirem da forma como quiserem. Alguns subs de fato gostam dessa atitude, mas em geral não é bem assim, e digo isso depois de conversar com muitos subs de vários locais diferentes e ouvir relatos de diversos tipos em que a imensa maioria relatou os traumas e medos gerados por esses traumas. Medo de ser abusado além daquilo que se inicialmente conversou; medo de ser abandonado e por isso se submetendo a tudo; medo de ser fisicamente machucado, mas por carência aceitar determinada prática que não gosta; medo de ser ignorado e portanto comprar atenção com agrados e presentes; medo de ser trocado por alguém mais novo, mais sarado ou mais dentro do padrão e por isso viver frenéticamente em academias e dietas mesmo odiando isso tudo… A pressão que se coloca nos subs é muito grande quando se trata de engajamento numa D/s, no entando, o que recebemos de volta? Quando as coisas fluem bem e o Dominador é consciente, ele valoriza o que tem, e busca desenvolver no sub seus melhores potenciais, mas quando não… o que temos são apenas as palavras de Hemignway: “a dark passage which led to nowhere, then to nowhere, then again to nowhere, once again to nowhere, always and forever to nowhere”. Invista na sua consciência. Aos Dominadores, não seja um babaca irresponsável. Aos submissos, nenhum homem é insubstituivel.