Ilustração: “Capitão Bearvel”, Marco Bym Veloso

Estamos no ano de 2008. A garotinha Isabela Nardoni, de 5 anos, é arremessada do quinto andar do prédio em que morava, pelo pai e pela madrasta. As enchentes arrasam Santa Catarina, deixando um rastro de morte. Em meio a escândalos de corrupção, aconteciam as eleições municipais e o povo brasileiro tentava se agarrar a alguma esperança. Nos EUA, a vitória histórica de Barack Obama sinalizava que o mundo clamava por mudanças. Explode a pior crise financeira mundial desde a Grande Depressão. O ciclone Nargis causa mais de 100 mil mortes em Mianmar. Um terremoto na China mata mais 80 mil. Dez atentados terroristas sincronizados em Bombaim deixam cidadãos desesperados, em meio a escombros, fogo, sangue, morte.

No mesmo ano, em maio, o filme Homem de Ferro é lançado, ganhando quase 600 milhões de dólares em todo mundo e consolidando o Universo Cinematográfico Marvel. O Incrível Hulk veio no mesmo ano, mais tímido, com menor orçamento e, apesar das críticas, arrecadou quase 240 milhões. Vieram, em seguida, Thor, Capitão América e Os Vingadores – este último arrecadando internacionalmente 1,5 bilhão de dólares (e ficando atrás, na época, apenas de Avatar e Titanic). Foi o boom dos filmes de super-heróis.

Grande parte do sucesso desses filmes é, obviamente, mercadológico. Orçamentos gigantescos, atores consagrados e efeitos especiais incríveis são alguns dos ingredientes para um blockbuster arrasador. Mas quero ir além. O Homem de Ferro, pioneiro há dez anos atrás, fez sucesso porque ele era necessário. De fato, precisávamos – e precisamos – de super-heróis.

Em um mundo cheio de violência, maldade na sua essência mais cruel, impunidade e desespero, foi libertador ver Tony Stark surgindo e socando alguns vilões e obliterando planos maléficos. Foi catártico ver o Hulk esmagando o que nós, se pudéssemos, também esmagaríamos. Deu aquele arrepio ver um deus nórdico descer e arrebentar com tudo o que nós mais odiamos. E quando os Chitauri são expurgados da Terra pelos Vingadores, nós nos sentimos, ainda que um pouquinho, vingados.

Passaram-se dez anos e nunca precisamos tanto de super-heróis. Entre delírios de governantes que dariam inveja ao Dr. Destino e ameaças de guerras aqui e ali, o que não daríamos para ver super-heróis destruindo ditaduras? O que não daríamos para ver desastres de avião sendo evitados por seres divinos? O que não daríamos para ver equipes de super-humanos evacuando áreas de terremotos e furacões antes que eles dizimassem cidades inteiras? O que não daríamos para ver massacres em escolas evitados, atentados terroristas impedidos, balas perdidas bloqueadas?

Pensando nisso, percebo que, embora eles não existam, embora grandes tragédias não possam ser evitadas por nossas mãos frágeis, nós somos os super-heróis que o mundo precisa. E, bem provavelmente, estamos trilhando, muitas vezes, o caminho dos vilões. Sobram poderes, mas faltam responsabilidades.

Basta notar que nós, LGBT, mesmo sendo minoria, segregamos uns aos outros. Importa-nos mais reproduzir o padrão de preconceito que vivemos do que nos unir, acolher e amar. Basta perceber que, dentro de nós, ainda tem racismo, ainda tem ódio, ainda tem preconceito. Basta constatar, com vergonha, que transformamos um sério cenário político em uma fogueira de vaidades.

No final das contas, pessoas vulneráveis (moradores de rua, pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, travestis, transexuais, crianças sofrendo abuso) precisam de nós, e podemos, sim, fazer alguma coisa. O país vive uma onda de caos e podemos, sim, fazer alguma coisa. Um sorriso, uma doação, um abraço, um gesto, um voto. Dez minutos de conversa e apoio. Um simples acreditar que o Brasil e o mundo podem ser melhores se nós formos melhores já faz de cada um de nós um super-herói, um agente de mudanças, alguém que luta, com as armas que tem, pelo futuro.

Que, no final, sejamos uma grande e unida equipe de X-Men. Quando isso acontecer, nada – nem ninguém – será mais forte do que todos nós juntos.